segunda-feira, 17 de setembro de 2012

descafeinada


Meu pai traz do interior uns biscoitinhos de padaria que são uma delícia. Eu sempre prefiro o salgado, apesar de toda a família preferir o doce. E não gosto dos biscoitos inteiros. Faço questão pelos quebrados e que façam bastante farelos. Só pego os inteiros pra fazer farelo na mão. Para o desespero da minha mãe e irmã que abominam a minha bagunça (nesse caso, minha sujeira). 

Esses biscoitinhos me lembram de tardes na casa da minha avó. Que os adora para tomar com café. Ela costuma chamar de biscoitinho de pobre. Lembram-me também os bolos que deram errados e sempre são muito bons quando acompanhados de café. Bolo de massa puba é ótimo com café. É como o chá da tarde. Só que com café e rodeado de biscoitinhos de padaria. 

Na casa dessa minha vó, havia uma mesa encostada na parede da cozinha que era onde ficava o de mais perigoso para uma criança curiosa, como eu: a cafeteira. Era um que de: tá quente, não mexe aí, é perigoso, é melhor brincar lá fora. O objeto mais usado da casa. Era avó, tios, pai, visitas. Todos eram convidados para uma xícara de café com bolo ou biscoitinhos. Na cozinha ou na sala. Ás vezes, minha avó sentava na porta e levava a xícara junto para conversas com os vizinhos na calçada.

Desde que me entendo de gente o café rodeia a família. Lembro de todas as xícaras de café de meu pai. Houve uma época em que ele saia para trabalhar às 4h30min da manhã, quando eu estava na casa dele ia muitas vezes junto nessas viagens. O café da manhã era por volta das 7h, em um restaurante/lanchonete na beira da estrada de um interiorzinho. Eu e meu pai muitas vezes íamos para casa de praia bem cedo, sem comer, para parar em qualquer barraca na estrada que oferecesse pelo menos um pão com queijo e suco. E se nada tivesse, dependendo da fome, aceitávamos uma fritura qualquer. Mas o café com biscoitinhos antes de sair de casa, ele nunca dispensava. 

Minha mãe também sempre tomou café. Mas ela gosta de café com leite e descafeinado. Café puro não curte muito. Mas sempre aceita quando oferecem depois de um almoço. Em um lanche. Na hora da fome, um cafezinho sempre cai bem.

As lembranças rodeadas de café são muitas. O único problema é que eu não gosto de café. Já experimentei, mas não gostei. Um problema pra mim é quando chega uma visita e quer café, eu nunca sei preparar. E não tem como experimentar pra ver se tá bom. Porque pra mim nunca está.

Certa vez quando estava nas aulas teóricas da auto escola, não deu tempo de comer nada antes de ir. Depois de um tempo a fome começou a apertar. Não havia nenhum confeitinho sequer na bolsa. Fui para salinha do café, torcendo para que houvesse os biscoitinhos que sempre tinham. Mas nesse dia só havia café. E agora? – pensei. Vou ter que encarar, todo mundo toma, vou conseguir também. Peguei os copinhos descartáveis de café. Coloquei metade (metade daqueles copinhos minúsculos), coloquei açúcar e bebi, com a certeza de que minha fome acalmaria. Mas não deu certo. Tremendo sacrifício tomar aquele líquido. Desci para o bebedouro e bebi todos os copos de água até ficar enjoada e enganar a fome.

Acho lindo um convite para um café. Sério mesmo! Dá um ar chique a coisa. Cafeteria na livraria é o ápice do bom gosto. Mas o meu convite vem sempre: vamos tomar um café sem café? Aceito chá, leite, suco, água. Só não café.

Outra coisa que adoro são as canecas de café. São lindas! Quero todas. Adoro as diferentes, de bichinhos, frases, desenhos, que toca ou tem foto quando quentes. São todas lindas. Mas eu sempre as preencho com água. Levo uma comigo quando tenho que estudar, ler um livro, assistir TV, ficar no computador ou escrever. Canecas de café com água. Ahh e eu gosto de garrafa térmica na mesa, mesmo que nem sempre a use.

Até hoje não sei usar cafeteira. Uma vez estava na sala de espera do consultório, fui pegar água e uns confeitos. Do lado estava aquela gerigonça (que me chama atenção). Deu vontade de pegar um café, mesmo sem gostar. Vi que do lado havia saches de chá. Pensei, problema resolvido, tomarei chá. Eu só precisaria conseguir ligar aquela máquina para pegar água quente. Mas eu não sabia mexer naquilo. Tentei mas não deu certo. Voltei para minha cadeira e sem chá.

Amo o cheiro de café. Uma lembrança de São Paulo é o cheiro do café. Adoro mesmo. O cheiro de café me leva a São Paulo, a casa da minha vó, os cafés com meu pai, da minha mãe sempre colocando leite na sua xícara, do meu avô sentado na cabeça da mesa, da infância querendo aprender a usar a cafeteira.

Por mais que eu tenha lembranças rodeadas de café, por mais que adore o cheiro, e tudo aquilo usado para o cafezinho Não gosto de café.

E acho que tem coisas que são assim. Você experimenta, curte experiências juntos, vive momentos, tem lembranças, mas elas ficam apenas nisso. Algumas pessoas não conseguem ser mais que boas lembranças. Fazem histórias, mas cada um em seu canto. Não se misturam a ponto de conseguir serem nós. E quando se entende isso, não é ruim. É uma forma de se viver melhor. Cada qual sabe o espaço que ocupa na vida do outro e não existem cobranças. Nem sempre é fácil, mas é menos complicado quando se entende que é essa condição para terem histórias.



Continuarei gostando de café. Adorando o cheiro. E estarei presente nas rodinhas para uma xícara de café. Mas ficarei apenas com a minha água. 







É apenas água.








Livre! Fique sim, livre
Fique bem, com razão ou não
Aterrize!...

2 comentários:

Bruna cw disse...

Gostei desse texto, acho até q combina comigo, pq também não gosto de café...rsrsrsrsr.melhor ficarmos na água mesmo.E esse foto ficou muito boa, a fotografa é ótima, quero recomendação depois.rsrsrs =D

Roseane disse...

A cada leitura me surpreendo com vc, não que ache que não escreverá bem, mais sim pq a cada escrita sempre vem uma boa estória, e como gosto de ler, não gosto e não tomo café, mais fiquei com água na boca pra tomar um café, que tal vamos tomar um café? rs rs rs

Vc está no curso certo, vai ser uma excelente jornalista...ameiiii...bjos com cheirinho de café