Meu pai traz do interior uns biscoitinhos
de padaria que são uma delícia. Eu sempre prefiro o salgado, apesar de toda a
família preferir o doce. E não gosto dos biscoitos inteiros. Faço questão pelos
quebrados e que façam bastante farelos. Só pego os inteiros pra fazer farelo na
mão. Para o desespero da minha mãe e irmã que abominam a minha bagunça (nesse
caso, minha sujeira).
Esses biscoitinhos me lembram de tardes na
casa da minha avó. Que os adora para tomar com café. Ela costuma chamar de
biscoitinho de pobre. Lembram-me também os bolos que deram errados e sempre são
muito bons quando acompanhados de café. Bolo de massa puba é ótimo com café. É
como o chá da tarde. Só que com café e rodeado de biscoitinhos de
padaria.
Na casa dessa minha vó, havia uma mesa
encostada na parede da cozinha que era onde ficava o de mais perigoso para uma
criança curiosa, como eu: a cafeteira. Era um que de: tá quente, não mexe aí, é
perigoso, é melhor brincar lá fora. O objeto mais usado da casa. Era avó, tios, pai,
visitas. Todos eram convidados para uma xícara de café com bolo ou biscoitinhos.
Na cozinha ou na sala. Ás vezes, minha avó sentava na porta e levava a xícara
junto para conversas com os vizinhos na calçada.
Desde que me entendo de gente o café
rodeia a família. Lembro de todas as xícaras de café de meu pai. Houve uma
época em que ele saia para trabalhar às 4h30min da manhã, quando eu estava na
casa dele ia muitas vezes junto nessas viagens. O café da manhã era por volta
das 7h, em um restaurante/lanchonete na beira da estrada de um interiorzinho.
Eu e meu pai muitas vezes íamos para casa de praia bem cedo, sem comer, para
parar em qualquer barraca na estrada que oferecesse pelo menos um pão com
queijo e suco. E se nada tivesse, dependendo da fome, aceitávamos uma
fritura qualquer. Mas o café com biscoitinhos antes de sair de casa, ele nunca
dispensava.
Minha mãe também sempre tomou café. Mas
ela gosta de café com leite e descafeinado. Café puro não curte muito. Mas
sempre aceita quando oferecem depois de um almoço. Em um lanche. Na hora da
fome, um cafezinho sempre cai bem.
As lembranças rodeadas de café são muitas.
O único problema é que eu não gosto de café. Já experimentei, mas não gostei.
Um problema pra mim é quando chega uma visita e quer café, eu nunca sei
preparar. E não tem como experimentar pra ver se tá bom. Porque pra mim nunca
está.
Certa vez quando estava nas aulas teóricas
da auto escola, não deu tempo de comer nada antes de ir. Depois de um tempo a
fome começou a apertar. Não havia nenhum confeitinho sequer na bolsa. Fui para
salinha do café, torcendo para que houvesse os biscoitinhos que sempre tinham.
Mas nesse dia só havia café. E agora? – pensei. Vou ter que encarar, todo mundo
toma, vou conseguir também. Peguei os copinhos descartáveis de café. Coloquei
metade (metade daqueles copinhos minúsculos), coloquei açúcar e bebi, com a
certeza de que minha fome acalmaria. Mas não deu certo. Tremendo sacrifício tomar
aquele líquido. Desci para o bebedouro e bebi todos os copos de água até ficar
enjoada e enganar a fome.
Acho lindo um convite para um café. Sério
mesmo! Dá um ar chique a coisa. Cafeteria na livraria é o ápice do bom gosto. Mas
o meu convite vem sempre: vamos tomar um café sem café? Aceito chá, leite,
suco, água. Só não café.
Outra coisa que adoro são as canecas de
café. São lindas! Quero todas. Adoro as diferentes, de bichinhos, frases,
desenhos, que toca ou tem foto quando quentes. São todas lindas. Mas eu sempre
as preencho com água. Levo uma comigo quando tenho que estudar, ler um livro,
assistir TV, ficar no computador ou escrever. Canecas de café com água. Ahh e
eu gosto de garrafa térmica na mesa, mesmo que nem sempre a use.
Até hoje não sei usar cafeteira. Uma vez
estava na sala de espera do consultório, fui pegar água e uns confeitos. Do
lado estava aquela gerigonça (que me chama atenção). Deu vontade de pegar
um café, mesmo sem gostar. Vi que do lado havia saches de chá. Pensei, problema
resolvido, tomarei chá. Eu só precisaria conseguir ligar aquela máquina para
pegar água quente. Mas eu não sabia mexer naquilo. Tentei mas não deu certo.
Voltei para minha cadeira e sem chá.
Amo o cheiro de café. Uma lembrança de São
Paulo é o cheiro do café. Adoro mesmo. O cheiro de café me leva a São Paulo, a
casa da minha vó, os cafés com meu pai, da minha mãe sempre colocando leite na sua
xícara, do meu avô sentado na cabeça da mesa, da infância querendo aprender a
usar a cafeteira.
Por mais que eu tenha lembranças rodeadas de café, por mais que adore o cheiro, e tudo aquilo usado para o cafezinho Não gosto de café.
E acho que tem coisas que são assim. Você
experimenta, curte experiências juntos, vive momentos, tem lembranças, mas elas
ficam apenas nisso. Algumas pessoas não conseguem ser mais que boas
lembranças. Fazem histórias, mas cada um em seu canto. Não se misturam a ponto de conseguir serem nós. E quando se entende isso, não é ruim. É uma forma de se viver melhor. Cada qual sabe o espaço que ocupa na vida do outro e não existem cobranças. Nem sempre é fácil, mas é menos complicado quando se entende que é essa condição para terem histórias.
Continuarei gostando de café. Adorando o cheiro. E estarei presente nas rodinhas para uma xícara de café. Mas ficarei apenas com a minha água.
| É apenas água. |
Livre! Fique sim, livre
Fique bem, com razão ou não
Aterrize!...
Fique bem, com razão ou não
Aterrize!...