Acompanhante de caminhada. Era a função numa manhã dessas de sábado em que tudo que queria era acordar um pouco mais tarde. Achei que poderia, realmente, ser uma boa. O caminho era relativamente perto de casa. Poucas quadras.
Fui.
E descobri que não conseguíamos andar juntos. Um estava sempre pouco mais na frente, o outro sempre um pouco mais atrás. Quando percebia, parava e esperava. Tentava controlar os passos, para andar lado a lado. Foi um trabalho tremendo ir e voltar.
Passos lentos atrapalham meus pensamentos.
Certas pessoas não podem andar comigo porque preciso de ritmos nas minhas caminhadas. Meus pensamentos são extremamente rápidos e mais rápido ainda é a forma como os troco. Por isso preciso manter um ritmo enquanto caminho.
Talvez meus atrasos sejam os culpados pelos passos rápidos. Deve-se também uma parcela de culpa para as minhas urgências. Ou talvez, isso pode ter a ver com o jeito de ser. Mas não é sempre que caminho rápido. Ás vezes ando pra respirar o vento, pra sentir o cheiro.
Descobri também que não importa o amor, algumas pessoas não nasceram para andar juntas. Quando separados, conseguem caminhar, mas juntos não encontram sintonia. Tentam. Mas um fica ofegante para acompanhar os passos, o outro entediado com a lentidão. Não acham um compasso. E quando por alguns segundos permanecem lado a lado, não formam uma dupla. Porque o amor tem dessas coisas.
Não estarem juntos nunca foi por falta de amor. De forma alguma, sabiam o que sentiam. Mas não conseguiam avançar. Havia sempre um ponto em que paravam e assim permaneciam.
Talvez ela precise ficar sempre na janela para vê-lo passar e ele precise cortar caminho pela rua dela para vê-la.
Mas não foi por acaso Que o encanto se quebrou
O tempo foi gastando O que não era pra durar Como se eu soubesse Não era amor pra todo dia
TRAVOU! Como um computador que tudo trava e você tenta todos os códigos e macetes para destravá-lo (como um celular que insiste em não abrir o aplicativo, no meio daquela conversa importante). E quando nenhum código resolve aquele problema, a solução, na maioria dos casos, é reiniciar. Algumas vezes, perde-se tudo. Alguns programas recuperam o que você estava fazendo. Outros, não tem jeito.
Foi assim que aconteceu com a cabeça. Vontade de escrever era o que não faltava. Sentava na frente no computador e... cadê mesmo as palavras que estavam aqui agora?! Pegava uma folha em branco e... onde foram parar todas aquelas frases?! Fugiam de mim assim como eu fugia dos pesadelos. Assim como eu fugia dos chatos. Assim como eu fugia dos sonhos e planos.
E todos os dias ia acumulando páginas em branco. Começaram a se formar aos montes perto de mim. Achava tudo incompleto. Achava ainda mais triste quando a tinta de uma tentativa de sair alguma coisa, borrava o papel todo. Era uma mistura de preto e cinza que... não dá pra ficar assim.
Por mais que não se queira pensar que a vida está recomeçando, o inicio de um novo ano acaba nos levando a fazer planos. As promessas para 2013 era apenas não ter promessas. Não existia planos, resolvi deixar a vida ir mostrando. O bom é que não há muitas decepções. Afinal, você não tá esperando muita coisa mesmo. Vai fazendo o seu e levando a vida.
Mas, para 2014 resolvi não fazer planos novamente. Decidi que resolveria todas as pendências dos anos anteriores. Juntei todas as listas passadas e escrevi na frente: 2014. É esse o plano, resolver tudo o que antes não foi resolvido. Resolver tudo o que vem sendo adiado. Um ano só é novo quando você tem resoluções novas e essas coisas velhas ás vezes assombram, como um fantasma na noite.
Acabar com as páginas em branco. Preenche-lás com vida. Deixar o papel colorido. Mesmo que seja de dias cinzas. Até porque não se pode querer que o céu esteja sempre azul.
E que essa estranha mania de ter fé na vida, nas pessoas, nos sonhos, no acaso, permaneça. Porque é isso que nos faz seguir em frente.
Que essa estranha mania de precisar sentir o coração pulsar mais rápido, impulsione para ir em busca de tudo aquilo que faz feliz.
Dia desses na praia, tinha um barco a velejar sozinho pelo mar. Não é apenas uma foto. Pode dizer mais, muito mais. Como, por exemplo, navegar é preciso. Mesmo que estejamos sozinhos por alguns momentos.
"Existe uma rachadura, uma rachadura em tudo. É por ela que entra a luz."
Sabe quando você precisa sair de casa apenas para resolver uma coisa e simplesmente não quer voltar logo? E não sabe se visita a amiga, se vai na praia ou por onde deve dirigir?!
Sabe quando você vai no shopping e começa a andar sem querer ver nada? Só andar e pensar e continuar andando (recolhendo todos os folhetos das entradas da loja para ver depois).
Sabe quando você resolve entrar na livraria (o lugar preferido do shopping), e acaba perdendo a hora porque ficou mergulhada nas palavras de um livro que achou?
Sabe quando você lembra de voltar e quer um caminho mas vai pra outro? E começa a inventar mil e uma desculpas para não ir onde se quer?!
Sabe quando já tá chegando em casa, liga o rádio e começa a tocar aquela música e de repente, você vira na próxima esquina e vai para onde se queria ir de verdade?
Sabe quando o caminho fica mais longo de propósito?
Sabe quando sinto tua falta e tudo o que queria era te ver?
Sabe quando a gente ajuda o destino e passa na frente do prédio com a esperança de encontrar e falar que foi tudo culpa do acaso?
Sabe quando... Não. Eu não sei de mais nada. Eu só sei disso que pulsa na veia, que bate no peito e que sente falta de saber mais... saber mais de você.
Sabe
Quando a gente tem vontade de encontrar
A novidade de uma pessoa
Quando o tempo passa rápido
Quando você está ao lado dessa pessoa
Quando dá vontade de ficar nos braços dela
E nunca mais sair
Sabe, Quando a felicidade invade
Quando pensa na imagem da pessoa
Quando lembra que seus lábios encontraram
Outros lábios de uma pessoa
E o beijo esperado ainda está molhado
E guardado ali em sua boca
Que se abre e sorri feliz
Quando fala o nome daquela pessoa
Quando quer beijar de novo muitos lábios
Desejados da sua pessoa
Quando quer que acabe logo a viagem
Que levou ela pra longe daqui
Sabe, Quando passa a nuvem brasa Ar de coco, sopro do ar que traz essa pessoa
Os termômetros despencaram. A cidade
esfriou. O casaco não protege do vento. O lençol não aquece o corpo. As meias confortam
um pouco os pés, faltam-me as luvas. O inverno chegou com tudo dessa vez.
As músicas até que aquecem um pouco a
manhã de domingo ensolarado e frio. O cobertor até pede pra ficar um pouco mais
na cama. Aliás, a cama é uma mistura de conforto desconfortável. Ás vezes, é
que tudo o que se quer. De repente, ela se torna um imenso vazio.
Os graus Celsius são os mesmo do inverno
passado, mas o frio não. Está diferente. Veio mais forte.
Sem dúvidas, tem algo novo nesse tempo
igual. Nem achei bonito tirar a roupa elegante do armário. Nem inventei
programinhas repentinos só para desfilar por aí mostrando a elegância do
inverno.
É um frio que vem da alma, do coração. É um vazio que vem dos sonhos desfeitos, das promessas quebradas. É uma preguiça que vem das vontades que foram embora, dos planos que se desfizeram. E a culpa não é do inverno.
Faltam conversas, olhares, carinho.
Falta inspiração, vontade, amor. (Falta amor. E foi daí que começou a faltar tudo)
É tanta coisa que falta. É tanto vazio que
se fez de repente. Passei a procurar lareiras que aquecessem o coração.
Subi na cadeira, no muro, fui para o alto da montanha. Parei na beira do precipício. E era tentador a vontade de me jogar, de voar. O vento ali parecia convidativo.
Mas lá do alto eu podia ver todo o mundo. Todo o meu mundo. E eu via sempre pessoas correndo de um lado para o outro. Estavam o tempo inteiro ocupadas. Nunca prestavam atenção em quem estava ao seu lado. Não havia tempo para um bom dia, nem um sorriso amarelo. Lembravam-se apenas de olhar para o relógio, para verem quanto tempo tinham, se daria tempo, se estavam atrasadas e para reclamar do trânsito que estava um caos.
Buzinas ensurdecedoras. O sinal fechava na hora em iam passar. Era um um jeito da vida dizer, PARE. Mas eles não entendiam. Ligavam o rádio apenas por hábito, não prestavam atenção quando a música dizia: "hoje o tempo voa, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir, que não há tempo que volte, vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir." Nada os fazia parar.
E na beira do precipício, o vento fazia barulho, bagunçava meu cabelo e a vontade de me jogar, aumentava. Tentar voar na direção que o vento seguisse. Mas foi esse vento que me derrubou e me deixou caída, lá no alto, olhando para o céu. E aí eu percebi o quão estrelada estava aquela noite. Quantas luzes brilhavam naquele dia.
Aquelas estrelas me fizeram lembrar que no final a guerra sempre vai ser você contra você mesma. As pessoas vão te machucar. E não importa qual o grau de intimidade e importância que elas tenham com você. E talvez você também as machuquem. Mas a guerra sempre será de você com você.
Oras vai precisar controlar a raiva. Outra hora precisará controlar tua tristeza, alegrias e sorrisos. Vai precisar guardar a tua dor, para sofrer na hora em que todos forem dormir.
Quando mais precisar de alguém, é quando mais vai se sentir sozinho. Não venham me falar que é nessas horas que se descobre com quem contar, porque não é. É nessas horas que você vai se descobrir que só resta você e você.
E veja que ironia: do alto da montanha vejo tanto gente.
Mas enquanto eu observava o céu, uma estrela cadente passou. E talvez por eu está sozinha foi que pude vê-la. Eu não sabia o que pedir. Foi quando a lua me fez lembrar que mesmo sozinha, eu posso iluminar.
Aprendi desde cedo que na vida sempre vai ter alguém pra te colocar pra baixo. Alguém pra te fazer desistir dos teus sonhos. Alguém pra te dizer que você não vai conseguir. Sempre existiram pessoas assim. Porém, o mais triste, é quando se descobre que algumas dessas pessoas convive com você. Ás vezes, estão dentro da tua casa.
Eu descobri que as mesmas pessoas que um dia me levaram a igreja e me apresentaram Deus, foram as mesmas que me fizeram perder a fé. Aquelas mesmas pessoas que me ensinaram a ter esperanças, a mataram dentro de mim. Me ensinaram a sonhar e destruíram os meus sonhos. Me falaram do amor, me ensinaram a amar e hoje esqueceram o que é amor.
São sempre essas mesmas pessoas que me mostraram o mundo, que me tiraram dele. Fizeram eu me perder. Fizeram eu esquecer onde estou, o que quero e quem eu sou.
E aí eu me pergunto: onde estou e que mundo é esse?!
Posso responder que o mundo lá fora me ensinou muita coisa, mas foi aqui do lado de dentro que eu aprendi muito mais.
Então, decidi que não quero ser mais um nessa multidão de pessoas ocupadas. Quero poder iluminar mesmo que sozinha. Quero que ao chegarem perto de mim, eu possa transmitir o amor, mesmo quando só trouxerem indiferença, arrogância e maldade.
Que a minha luz seja tão grande, tão forte e que te faça cegar, para te fazer parar. Para que veja que há sempre um algo mais. Para que se lembre que o teu maior inimigo é você mesmo. Para que olhe no espelho e descubra que olhar pra dentro pode ser a solução. Para que mesmo sozinho você seja capaz de amar. Apesar de tudo, apesar de tudo.
(que eu lembre sempre de sorrir, mesmo quando tudo for para chorar)
Olha a luz que brilha de manhã/ Saiba quanto tempo estive aqui/ Esperando pra te ver sorrir/ Pra poder seguir/ Lembre que hoje vai ter pôr do Sol/ Esqueça o que falei sobre sair/ Corra muito além da escuridão/ E corra, corra!/ Não desista de quem desistiu/ Do amor que move tudo aqui/ Jogue bola, cante uma canção/ Aperte a minha mão/ Quebre o pé, descubra um ideal/ Saiba que é preciso amar você/ Não esqueça que estarei aqui/ E corra, corra!/ Azul, vermelho/ Pelo espelho/ A vida vai passar/ E o tempo está no pensamento
- Estava pensando com meus botões, meu
coração deve tá com problemas (não é caso sério e nenhuma novidade, meu coração
vive com problemas, está sempre disritmado). Mas é como se sentisse uma sede de viver. É como se o mundo
interno precisasse invadir o externo. É como se tivesse que ser vivido do lado
de fora.
(silêncio)
Outra coisa, cheguei à conclusão que
promessas de amor deveriam ser proibidas. Porque acaba tornando obrigação cumpri-las. Faz-se do amor uma obrigação. Não pode. Tem que deixar
acontecer.
(mais silêncio)
Não sei se está conseguindo me acompanhar
e entender. Talvez, seja muito aquarianista essas coisas.
E para uma mente tão sã quanto a sua, isso é confuso.
- Se eu te fizer uma pergunta, tu jura que
me responde a verdade?
- Sim
- Você anda usando drogas? Sério,
podemos procurar um tratamento pra você. Te ajudo nessa recuperação.
- hahahaha... Não uso drogas e não precisa se preocupar com isso. São apenas pensamentos de
domingo.
- Ok, prosseguiremos. Porém, essas
indecisões, pensamentos sem rumo... São normais. Acho que a gente está na idade
das dúvidas. Falam que é na adolescência, mas eu já passei por ela e discordo.
A fase adulta é a fase das dúvidas, porque é nessa fase que você começa a
realmente tirar suas decisões por si, que você realmente assume
responsabilidades que não irão recair sobre as costas de mais ninguém. Só sobre
as suas.
(atenção para o rumo da conversa, percebe-se que o pensamento aquarianista realmente não está sendo acompanhado)
- Segundo o que falam da adolescência, eu
devo ter começado a viver a minha com 20 anos. Aliás, ainda estou vivendo a.
- Então, a incerteza do que fazer ou de
que decisão tomar vão se tornar cada vez mais frequentes.
- Acho que os erros nessa fase são
melhores, não menos doídos. São mais vividos, porque quando
adolescente muitas vezes você nem enxerga como um erro.
- Exato. Adolescência é uma fase que você
passa para aprender os princípios da vida. É como a escola, passamos a vida toda na escola para aprender e chegar à faculdade. A adolescência uma fase que você passa para aprender os princípios da
vida e colocá-los em prática na fase adulta.
(pausa)
- Mas eu não estava falando de
adolescentes, nem adultos. Eu falava daquilo que vive batendo no lado
esquerdo do peito, que chamam de coração.
- Seu coração está assim, por causa das
dúvidas. É comum. É normal. Você acha que tudo mundo na nossa fase está certo
das coisas? Certo do que queremos? Não.
- Penso que nesse momento meu coração
poderia ser substituído por um ponto de interrogação. Mas acho que as
interrogações devem continuar mesmo na cabeça, porque no fundo o coração sabe o
que a gente quer e deve fazer.
- Daria na mesma coisa. É como discutir
qual é o pior dia da semana, se não fosse a segunda seria a terça. O coração
poderia ser substituído pelo fígado, se ele tivesse a mesma função do coração,
iríamos sentir a mesma coisa.
- Sim. Mas acho que você ainda continua
não entendendo. Não é pra ser levado tão a sério. Porque no fundo isso tudo é pra
falar de amor.
- Amor é um problema.
- Por isso que você vive fugindo.
- Eu acho que nunca vou conseguir entender
direito a finalidade do amor. Não é querendo ser durona, mas é que eu não
consigo entender como que uma coisa é pra te deixar feliz e te deixa triste. E
porque a gente luta tanto por uma coisa que nos deixa mal. Realmente é muito
para minha cabeça.
- O amor não é pra deixar ninguém mal.
Porém, é impossível amar sem sofrer. Só que esse sofrimento, é inclusive, o que
muitas vezes faz o amor crescer, amadurecer, melhorar e parar de sofrer. Mas é
um fato: quem ama sofre.
- Concordo. Mas poderia ser mais fácil.
- Por quê? Se fosse fácil não saberíamos
dar o seu devido valor.
- Eu vou procurar um “mô” pra mim. Toda
vez que vejo um casal se chamando assim, eu me lembro da história daquele dia.
(piada interna)
- Um dia quando tivemos o nosso "mô", riremos
ainda mais.
- Verdade, viu!?
- Tudo o que um dia a gente disse nunca fazer, o amor nos faz fazer. E repetidas vezes.
- Outra verdade.
- O amor é capaz de mudar uma pessoa. Mas,
não necessariamente pelo outro e sim porque ela se torna melhor amando. E sendo
amada.
- Concordo. Eu sempre admirei muito o amor
das pessoas, mas sempre achei difícil realmente amar alguém. Digo no sentido
homem e mulher. Sempre me achei tão bem resolvida quanto a isso , tão
independente...
- O amor é liberdade. É tanto, que é você
quem escolhe ficar. Adoro quando o poeta diz: liberdade na vida é ter um amor
para se prender.
- Quando estive com “ele”, foi muito bom.
Realmente o amei de verdade e nem sabia nada de amor. Mas daí vieram os
desencontros da vida e as coisas não acabaram tão bem, nos afastamos. E
agora, alguns meses depois, voltamos a nos falar e renasceu uma energia tão
boa, uma coisa legal.
- O amor nunca acaba. Ele se transforma.
Vira carinho, amizade, lembrança, raiva... Mas não acaba. Você já passou pela
fase do sofrimento, agora vai parar de doer.
Acho que Platão deve ter um baita
orgulho de mim, mas eu não quero mais viver de Platonismos. Quero um amor onde
duas pessoas possam está juntas nesse plano de amar. Amando, sofrendo, errando,
aprendendo, mas juntos. E não precisa ser pra sempre, basta durar o que tiver
que durar. Viver o que tiver que viver. Precisa durar apenas enquanto existir
amor.
-UAU. Tens toda razão. Amar só por
escolher amar também não tem graça. Tem que amar por amor. Eu já tentei amar por
escolha e não é legal. Você não consegue.
- Ninguém escolhe quem amar.
- Tem gente que consegue.
- Não, não. Acho que você acaba amando mas não
porque escolheu e sim porque descobriu um ser que admirasses. Acabou descobrindo o amor.
- Pode ser.
- Eu gosto de amar o amor.
- Não sei necessariamente se eu gosto.
- Ai ai ai
- Acho que estamos drogadas. Olha só essa
conversa.
- Porque encaras o amor como uma droga?
- E não é?!
- Não. Não é.
- Não vamos começar isso de novo. Até
porque eu preciso ir. Tu vais ser sempre essa eterna apaixonada pelo amor e por
tudo e defenderá o amor até o fim.
- Quero poder ser sempre assim.
Coisas que só um final de domingo pode fazer.
E toda essa tagarelice é culpa da água de janeiro que me deram.
Eu vou tentar mais uma vez Eu vou atrás, não vou ter medo Eu vou bater, eu vou entrar Eu vou chegar mais cedo mais uma vez
Eu vou entrar na tua casa Eu vou entrar na tua vida
Meu pai traz do interior uns biscoitinhos
de padaria que são uma delícia. Eu sempre prefiro o salgado, apesar de toda a
família preferir o doce. E não gosto dos biscoitos inteiros. Faço questão pelos
quebrados e que façam bastante farelos. Só pego os inteiros pra fazer farelo na
mão. Para o desespero da minha mãe e irmã que abominam a minha bagunça (nesse
caso, minha sujeira).
Esses biscoitinhos me lembram de tardes na
casa da minha avó. Que os adora para tomar com café. Ela costuma chamar de
biscoitinho de pobre. Lembram-me também os bolos que deram errados e sempre são
muito bons quando acompanhados de café. Bolo de massa puba é ótimo com café. É
como o chá da tarde. Só que com café e rodeado de biscoitinhos de
padaria.
Na casa dessa minha vó, havia uma mesa
encostada na parede da cozinha que era onde ficava o de mais perigoso para uma
criança curiosa, como eu: a cafeteira. Era um que de: tá quente, não mexe aí, é
perigoso, é melhor brincar lá fora. O objeto mais usado da casa. Era avó, tios, pai,
visitas. Todos eram convidados para uma xícara de café com bolo ou biscoitinhos.
Na cozinha ou na sala. Ás vezes, minha avó sentava na porta e levava a xícara
junto para conversas com os vizinhos na calçada.
Desde que me entendo de gente o café
rodeia a família. Lembro de todas as xícaras de café de meu pai. Houve uma
época em que ele saia para trabalhar às 4h30min da manhã, quando eu estava na
casa dele ia muitas vezes junto nessas viagens. O café da manhã era por volta
das 7h, em um restaurante/lanchonete na beira da estrada de um interiorzinho.
Eu e meu pai muitas vezes íamos para casa de praia bem cedo, sem comer, para
parar em qualquer barraca na estrada que oferecesse pelo menos um pão com
queijo e suco. E se nada tivesse, dependendo da fome, aceitávamos uma
fritura qualquer. Mas o café com biscoitinhos antes de sair de casa, ele nunca
dispensava.
Minha mãe também sempre tomou café. Mas
ela gosta de café com leite e descafeinado. Café puro não curte muito. Mas
sempre aceita quando oferecem depois de um almoço. Em um lanche. Na hora da
fome, um cafezinho sempre cai bem.
As lembranças rodeadas de café são muitas.
O único problema é que eu não gosto de café. Já experimentei, mas não gostei.
Um problema pra mim é quando chega uma visita e quer café, eu nunca sei
preparar. E não tem como experimentar pra ver se tá bom. Porque pra mim nunca
está.
Certa vez quando estava nas aulas teóricas
da auto escola, não deu tempo de comer nada antes de ir. Depois de um tempo a
fome começou a apertar. Não havia nenhum confeitinho sequer na bolsa. Fui para
salinha do café, torcendo para que houvesse os biscoitinhos que sempre tinham.
Mas nesse dia só havia café. E agora? – pensei. Vou ter que encarar, todo mundo
toma, vou conseguir também. Peguei os copinhos descartáveis de café. Coloquei
metade (metade daqueles copinhos minúsculos), coloquei açúcar e bebi, com a
certeza de que minha fome acalmaria. Mas não deu certo. Tremendo sacrifício tomar
aquele líquido. Desci para o bebedouro e bebi todos os copos de água até ficar
enjoada e enganar a fome.
Acho lindo um convite para um café. Sério
mesmo! Dá um ar chique a coisa. Cafeteria na livraria é o ápice do bom gosto. Mas
o meu convite vem sempre: vamos tomar um café sem café? Aceito chá, leite,
suco, água. Só não café.
Outra coisa que adoro são as canecas de
café. São lindas! Quero todas. Adoro as diferentes, de bichinhos, frases,
desenhos, que toca ou tem foto quando quentes. São todas lindas. Mas eu sempre
as preencho com água. Levo uma comigo quando tenho que estudar, ler um livro,
assistir TV, ficar no computador ou escrever. Canecas de café com água. Ahh e
eu gosto de garrafa térmica na mesa, mesmo que nem sempre a use.
Até hoje não sei usar cafeteira. Uma vez
estava na sala de espera do consultório, fui pegar água e uns confeitos. Do
lado estava aquela gerigonça (que me chama atenção). Deu vontade de pegar
um café, mesmo sem gostar. Vi que do lado havia saches de chá. Pensei, problema
resolvido, tomarei chá. Eu só precisaria conseguir ligar aquela máquina para
pegar água quente. Mas eu não sabia mexer naquilo. Tentei mas não deu certo.
Voltei para minha cadeira e sem chá.
Amo o cheiro de café. Uma lembrança de São
Paulo é o cheiro do café. Adoro mesmo. O cheiro de café me leva a São Paulo, a
casa da minha vó, os cafés com meu pai, da minha mãe sempre colocando leite na sua
xícara, do meu avô sentado na cabeça da mesa, da infância querendo aprender a
usar a cafeteira.
Por mais que eu tenha lembranças rodeadas
de café, por mais que adore o cheiro, e tudo aquilo usado para o cafezinho Não
gosto de café.
E acho que tem coisas que são assim. Você
experimenta, curte experiências juntos, vive momentos, tem lembranças, mas elas
ficam apenas nisso. Algumas pessoas não conseguem ser mais que boas
lembranças. Fazem histórias, mas cada um em seu canto. Não se misturam a ponto de conseguir serem nós. E quando se entende isso, não é ruim. É uma forma de se viver melhor. Cada qual sabe o espaço que ocupa na vida do outro e não existem cobranças. Nem sempre é fácil, mas é menos complicado quando se entende que é essa condição para terem histórias.
Continuarei gostando de café. Adorando o cheiro. E estarei presente nas rodinhas para uma xícara de café. Mas ficarei apenas com a minha água.
É apenas água.
Livre! Fique sim, livre Fique bem, com razão ou não Aterrize!...